VINÍCIUS BARBOZA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A China rebateu e criticou os Estados Unidos sob vários aspectos durante o pronunciamento na 81ª Assembleia Geral da ONU neste sábado (26). Contudo, não citou nominalmente a nação governada por Donald Trump nenhuma vez.

O discurso foi lido em Nova York por Han Zheng, vice-líder chinês. O dirigente da China, Xi Jinping, estava nos EUA até esta sexta-feira (25) para uma visita de Estado, mas não participou do debate da ONU.

De acordo com a imprensa asiática, a viagem teria sido limitada pela China a três dias a fim de passar uma mensagem de que Washington e Pequim estão igualados em nível de importância --em maio, Trump havia feito uma visita oficial a Xi que também durou três dias.

Han dividiu o pronunciamento em temas tratados por Pequim como fundamentais para que o mundo supere suas principais mazelas. No primeiro tópico, o vice-líder criticou os conflitos bélicos e disse que "o mundo quer paz, não guerras", e precisa superá-las para construir uma paz duradoura.

"A China considera que a soberania e a segurança dos países do Oriente Médio, incluindo os países do Golfo, devem ser respeitadas", afirmou, de novo sem citar os Estados Unidos, que, ao lado de Israel, iniciaram o conflito contra o Irã vigente desde 28 de fevereiro.

Durante as negociações em Washington, Trump alertou Xi contra o apoio ao Irã, na esteira de relatos de que a Pequim havia fornecido a Teerã lançadores portáteis de mísseis antiaéreos e que o regime teocrático havia encontrado maneiras de burlar as sanções às suas vendas de petróleo com a ajuda dos chineses. O americano teria ouvido de Xi garantias de que não haveria suporte chinês ao regime iraniano.

Acerca da Ucrânia, o vice-dirigente poupou a Rússia, sua aliada, e não citou o país de Vladimir Putin, que invadiu Kiev em 2022 e iniciou a guerra direta que se aproxima de completar cinco anos. Ao mencionar o conflito, limitou-se a afirmar que Xi já apresentou seus pontos sobre o que deve ser feito.

Novas críticas a Washington foram feitas por Han ao comentar a crise vivida pelos cubanos. "A China insta o país em questão [os EUA] a cessar imediatamente o uso da ameaça da força contra Cuba e a suspender imediata e completamente o bloqueio e as sanções", disse o vice-dirigente.

Diferentemente do posicionamento enfático de 2023, o discurso de Han na Assembleia deste ano não citou Taiwan. Nas entrelinhas, o vice-líder apenas relembrou que a ONU, em 1971, adotou a Resolução 2758, que reconheceu a República Popular da China como a única representante legítima do país nas Nações Unidas e expulsou os representantes taiwaneses.

Taiwan é tratado pelos chineses como parte inalienável de seu território. A questão da ilha era o tópico mais sensível da visita de Estado de Xi a Washington. O dirigente chinês não quer que os EUA vendam um pacote de US$ 14 bilhões em armamentos para Taipé.

Não houve menção à Venezuela, cuja ditadura é alinhada ideologicamente a Pequim. Os Estados Unidos capturaram e destituíram o ditador Nicolás Maduro em janeiro e transformaram o país sul-americano em uma espécie de protetorado petrolífero sob a supervisão americana e comandada pela líder interina Delcy Rodríguez.

Países desenvolvidos devem financiar desenvolvimento dos demais, diz vice de Xi

Como segundo pilar para o futuro, a China afirmou na ONU que os países desenvolvidos precisam atuar juntos para promover o crescimento de nações do chamado Sul Global (grupo de países pobres ou emergentes).

"É importante dar prioridade a áreas fundamentais, incluindo a redução da pobreza, a segurança alimentar e a transição energética, ampliar a destinação de recursos e aumentar o apoio aos países do Sul Global", afirmou o vice de Xi.

"Os países desenvolvidos devem cumprir seus compromissos de financiamento ao desenvolvimento e de financiamento climático. A comunidade internacional também deve construir consensos e unir esforços para formular a agenda global de desenvolvimento pós-2030."

"Protecionismo não produz vencedores", afirma Pequim

O enviado de Xi à Assembleia Geral da ONU afirmou em discurso na ONU que os países precisam desenvolver a inteligência artificial para fins positivos e para o bem, além de "reduzir a divisão digital".

Também defendeu o multilateralismo e criticou o protecionismo adotado por algumas nações, sem citar os EUA ou a guerra comercial e o tarifaço promovidos por Trump.

"O protecionismo não produz vencedores. Construir muros, erguer barreiras, promover o descolamento e interromper cadeias de suprimentos desestabilizam as cadeias industriais e de suprimentos globais e prejudicam os interesses de todas as partes", disse Han.

O terceiro e o quarto tópicos do discurso do vice-líder focaram a promoção dos intercâmbios culturais entre nações por meio da comunicação e do diálogo e a defesa do multilateralismo. "Devemos rejeitar o preconceito ideológico e respeitar os caminhos de desenvolvimento e os sistemas sociais escolhidos de forma independente pelos povos de todos os países", afirmou.