Por algumas horas, uma superquadra da Asa Sul deixou de ser apenas parte da paisagem cotidiana de Brasília para se transformar em cenário de cinema. Dentro de um apartamento, uma equipe se movimentava entre ajustes de luz, figurino e cenário enquanto Ruan Vitor Vaqueirinho e Thainá Duarte se preparavam para mais uma tomada de O Menino Que Não Existia, novo longa-metragem de Iberê Carvalho.
Do lado de fora, a rotina característica das quadras seguia normalmente. Do lado de dentro, vitrola, luminárias, quadros e outros objetos ajudavam a construir o universo da história. A reportagem do Jornal de Brasília acompanhou uma das diárias de gravação e viu de perto a preparação de uma cena em que os personagens de Ruan e Thainá conversavam sobre música e sobre Tim Maia.
O contraste entre o cotidiano da cidade e o que acontece diante das câmeras também está no centro do filme. Dirigido pelo brasiliense Iberê Carvalho, O Menino Que Não Existia acompanha dois irmãos, de 10 e 16 anos, que vivem nas ruas de Brasília e acabam envolvidos em uma trama política de grandes proporções. “É uma história que fala sobre afeto, é uma história que fala sobre política nacional, é uma história que fala sobre desigualdade, sobre injustiça e, sobretudo, sobre o afeto desses dois irmãos”, explica Iberê.
Iberê Carvalho, Diretor do filme. - Foto: Larissa Barros/Jornal de BrasíliaO diretor, que também assina O Último Cine Drive-in e O Homem Cordial, encontrou no novo roteiro elementos que dialogam com os trabalhos anteriores. Entre eles está a vontade de observar o Brasil a partir de relações familiares e dos conflitos sociais que atravessam o país. “Eu acho que esse filme tem elementos que estão presentes nos dois longas anteriores que eu fiz. Um desses elementos é a vontade de falar sobre o Brasil, de tentar refletir sobre o nosso país e sobre o momento que a gente está vivendo”, afirma.
Brasília entre dois mundos
A escolha de Brasília como cenário não é apenas geográfica. Para Iberê, a cidade ajuda a traduzir visualmente as contradições presentes na história. As gravações passam pelo Plano Piloto, Guará e Sol Nascente, aproximando diferentes paisagens e realidades do Distrito Federal.
Nascido e criado na capital, o diretor diz que voltar a filmar na cidade depois de passar um período longe mudou sua própria maneira de enxergá-la. “Quando você sai e passa um tempo fora, você passa a ver valores e características que antes não chamavam a sua atenção. É como transformar aquilo que para mim era familiar até um determinado momento, porque eu vivi aqui minha vida toda, agora, quando eu saio e volto, aquilo passa a ter algum elemento de exótico, de diferente, de especial”, conta.
A arquitetura modernista, tão associada à imagem oficial de Brasília, também ganha outra função no longa. Para Iberê, a monumentalidade da cidade ajuda a construir a tensão entre poder e vulnerabilidade que atravessa a narrativa. “É uma história sobre desigualdade também, é uma história sobre contrastes. E essa arquitetura tão bonita, mas ao mesmo tempo que reflete, que nos remete ao poder, tão presente, nos ajuda muito a contar essa história de contradições e de contrastes”, explica.
Thainá Duarte, atriz. - Foto: Larissa Barros/Jornal de BrasíliaA atriz Thainá Duarte, que interpreta a jornalista Flávia, também percebeu essa relação durante as gravações. Vinda de São Paulo, ela diz que a própria estrutura da capital influencia a experiência de interpretar uma personagem ligada ao jornalismo e à política. “Em São Paulo, eu acho que as coisas ficam mais disseminadas. Aqui, eu vejo que o interesse pela política, o envolvimento com a política é maior do que em São Paulo, porque as pessoas estão realmente muito perto do centro de decisão”, observa.
Para ela, Brasília também permite que o filme apresente um lado menos associado ao cartão-postal da cidade. “Eu acho interessante o filme trazer, dentro dessa visão que a gente tem de Brasília, esse lado B, pessoas em situação de vulnerabilidade, morando na rua, que existe aqui também, e esse buraco entre essas duas realidades”.
Uma jornalista em busca do furo
Na trama, Thainá vive Flávia, uma jornalista que acompanha de perto a história de Pivete, personagem de Ruan. É a primeira vez que a atriz interpreta uma profissional da imprensa, experiência que a levou a pesquisar a rotina e a postura de jornalistas.
Para construir a personagem, Thainá participou de conversas com profissionais da área, incluindo uma assessora que atualmente trabalha com o ministro da Fazenda. “Foi um guia de atitude, dessa perseverança de encontrar o furo. E é interessante também porque mudou um pouco a minha relação com os jornalistas”, conta.
Foto: Larissa Barros/Jornal de BrasíliaA atriz também não enxerga Flávia como uma personagem completamente correta ou facilmente identificável como heroína. Pelo contrário. Parte do interesse está justamente nas falhas e contradições da jornalista. “É uma personagem que é falha, mas isso também a deixa muito interessante. Eu tive que tirar um pouco do meu senso crítico porque a personagem tem atitudes que eu discordo”, afirma.
Flávia vive uma realidade distante da de Pivete. Enquanto ela está preocupada com a carreira e com a possibilidade de subir de cargo, o menino está preocupado com questões mais básicas de sobrevivência. “Ele está preocupado em sobreviver, ela está preocupada em subir de cargo”, resume Thainá.
É nesse contraste que, segundo a atriz, está uma das principais transformações da personagem. “O arco dramático da personagem ganha força quando ela percebe que está ficando cega atrás da ambição dela. E é esse o ponto da lição que a Flávia tem a passar com a história dela no filme: até onde a ambição pode levar você, até onde a ambição pode te deixar cego para o outro”.
Do Vaqueirinho ao Pivete
A poucos metros da equipe, Ruan Vitor Vaqueirinho encara um desafio completamente diferente dos palcos. Conhecido pelas músicas de forró e piseiro que publica nas redes sociais, o artista baiano estreia no cinema como protagonista. Para ele, a mudança de linguagem não foi simples. “Foi bem difícil, porque é meu primeiro filme, nunca tinha feito filme”, conta. “Minha carreira mesmo é como cantor. Aí surgiu essa proposta e a gente fez, experimentou”.
Ruan Vitor Vaqueirinho, protagonista. - Foto: Larissa Barros/Jornal de BrasíliaA experiência também exigiu que Ruan se afastasse da imagem que construiu diante das câmeras ao longo da carreira. Se antes o público encontrava o Vaqueirinho, agora ele precisa desaparecer dentro de outro personagem. “Meu personagem sempre foi o Ruan Vitor Vaqueirinho. Nas câmeras era o Vaqueirinho, fora das câmeras era o Ruan Vitor. E aí é bem diferente viver esse personagem”, explica.
Pivete também carrega uma história muito distante da sua. O personagem vive nas ruas ao lado do irmão e enfrenta situações de julgamento e invisibilidade. Apesar das diferenças, Ruan encontrou uma característica em comum entre os dois, o instinto. “O instinto é igual. Eu tenho um instinto igual ao do Pivete, de bicho solto”, diz. As diferenças, porém, são muitas. Pivete vive nas ruas e tem um irmão mais velho. Ruan cresceu na Bahia, tem dois irmãos gêmeos e uma casa para voltar. “Graças a Deus eu tenho casa”, resume.
Uma história para provocar o olhar
O título do filme já aponta para uma das questões centrais da narrativa, a invisibilidade de pessoas que vivem à margem. Para Iberê, o cinema pode fazer mais do que contar essa história. Pode provocar uma mudança, ainda que pequena, na maneira como o público olha para quem costuma passar despercebido. “Eu faço cinema para emocionar as pessoas, mas também para que as pessoas, de alguma forma, consigam modificar, nem que seja minimamente, a sua forma de ver as pessoas que estão aí”, afirma.
Foto: Larissa Barros/Jornal de BrasíliaO diretor relaciona o título à existência de milhares de brasileiros que, segundo ele, permanecem afastados do acesso pleno a serviços públicos, cidadania e direitos. “Se a pessoa sair do cinema e ver uma pessoa numa situação assim de vulnerabilidade e olhar para ela com um pouquinho mais de afetividade ou até mesmo com um pouquinho mais de curiosidade para saber o que está por trás da vida daquela pessoa, isso já terá sido um grande trunfo do filme”.
No set visitado pelo Jornal de Brasília, a equipe seguia uma rotina de muitos detalhes, os atores repetiam as cenas, enquanto profissionais ajustavam o cenário, reposicionavam objetos e preparavam tudo para uma nova tomada.
A produção também aposta na música como elemento importante da narrativa. Na cena acompanhada pela reportagem, o assunto aparece naturalmente entre os personagens. Fora dela, a trilha sonora da experiência de Ruan também atravessa o projeto, unindo a trajetória musical do artista ao seu primeiro trabalho como ator.
Ainda sem data definida, O Menino Que Não Existia tem previsão de chegar aos cinemas em 2027. Até lá, Brasília continua sendo construída diante das câmeras, não apenas como cartão-postal, mas como uma cidade de contrastes, encontros e histórias que nem sempre são vistas.