REINALDO JOSÉ LOPES
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS)
Um estudo que ainda precisa passar pelo crivo da comunidade científica sugere que órgãos de indivíduos mais velhos, quando transplantados para pacientes mais jovens, podem passar por um processo de rejuvenescimento parcial. Eles ficariam biologicamente mais parecidos com o organismo de seus receptores, o que poderia ampliar as possibilidades de doações de órgãos.
O contrário, porém, também é verdadeiro: quando o doador é jovem e o receptor é mais velho, o órgão recebido tenderia a "envelhecer". As conclusões vêm de um trabalho coordenado por Jesse Poganik, da Universidade Harvard (Estados Unidos).
Poganik postou a versão preliminar da pesquisa na plataforma online bioRxiv no dia 17 do mês passado.
Os dados apresentados pelo pesquisador e seus colegas ainda têm de passar pelo processo de revisão por pares, que confere a chancela para a publicação num periódico acadêmico sério.
Detalhes sobre o trabalho de Poganik e seus colaboradores foram divulgados em reportagem no site da revista científica britânica Nature. As pistas iniciais de que o fenômeno estava acontecendo vieram de experimentos com camundongos de laboratório e, mais tarde, a equipe verificou coisas muito similares num pequeno grupo de transplantados humanos.
Por enquanto, as conclusões do estudo valem apenas para transplantes de coração. Os camundongos estudados inicialmente pela equipe de Harvard e seus colegas de outras instituições nos EUA e na Alemanha mantiveram seus corações naturais, mas também receberam órgãos de outros roedores. Os corações transplantados foram ligados à artéria carótida e à veia jugular dos animais (ambas essenciais para o fluxo de sangue na região da cabeça).
Os doadores dos novos corações tinham idades que iam de três meses a mais de um ano e meio, o que abrange boa parte do ciclo de vida dos roedores, da juventude à velhice, passando pela meia-idade. Da mesma forma, os camundongos receptores se encaixavam nesses diferentes grupos etários.
Após meses de funcionamento do órgão transplantado no corpo das cobaias, os animais foram sacrificados, e os pesquisadores se puseram a examinar marcadores moleculares de envelhecimento das células cardíacas. Trocando em miúdos, eles usaram modificações já conhecidas dos componentes celulares, associadas ao processo de envelhecimento, para estudar o que estava acontecendo com os camundongos.
Os marcadores que Poganik e seus colaboradores examinaram foram os de expressão gênica (ou seja, uma medida de quanto determinadas áreas do DNA estão sendo usadas como "receita" para a produção de proteínas das células) e metilação.
Esse segundo caso também está associado à expressão gênica e, mais especificamente, corresponde à presença de uma pequena molécula, o grupo metila (formado por um átomo de carbono e três de hidrogênio), conectado a "letras" específicas do DNA.
É comum que a metilação funcione como um "botão de desligue" em determinados genes, direcionando o funcionamento das células conforme elas se multiplicam, especializam-se e, com o passar do tempo, envelhecem. Já no caso da expressão gênica de modo geral, também é sabido que, dependendo da idade do indivíduo, o padrão de ativação e desativação do DNA também vai mudando.
Usando dados de outros estudos e sistemas de aprendizado de máquina, os pesquisadores da equipe verificaram que, em ambos os casos, os marcadores de envelhecimento nos corações transplantados passavam a seguir o dos camundongos receptores. Ou seja, se o órgão já era "idoso", mas foi parar no corpo de um roedor jovem, ele parecia rejuvenescer molecularmente, e o contrário era verdadeiro se as idades de doadores e receptores se invertiam.
O passo seguinte da equipe foi validar os resultados em seres humanos com a ajuda dos bancos de dados do Brigham and Womens Hospital, na cidade americana de Boston. Lá, eles tiveram acesso a biópsias feitas em corações transplantados, o que permitia conduzir a mesma análise de marcadores moleculares.
No total, obtiveram dados sobre 11 transplantes que tinham a ver com os critérios do estudo, ou seja, um desnível de idade significativo entre doador e receptor. No caso dos doadores mais jovens e receptores mais velhos, a diferença de idade ficava entre 38 anos e 50 anos. Já no dos receptores mais jovens e doadores mais velhos, o intervalo etário ficava entre 8 anos e 24 anos.
"A coisa mais impressionante é que verificamos exatamente os mesmos efeitos que tínhamos vistos nos camundongos", resumiu Poganik em entrevista à Nature. Não se trata, porém, de uma mudança mágica.
Todos os corações transplantados parecem envelhecer um pouco, provavelmente por causa do estresse associado ao processo de transferência do órgão de um indivíduo para outro. Além disso, algumas características funcionais do órgão continuavam mais parecidas com as de uma pessoa mais velha, mesmo após algum tempo no corpo de alguém mais jovem.
Hoje, a recomendação mais comum é que pessoas que morrem com menos de 45 anos sejam as doadoras de corações para transplante. Caso os dados da nova pesquisa sejam confirmados, abre-se a possibilidade de ampliar esse grupo de doadores, evitando que algumas pessoas fiquem sem acesso ao transplante.