Por Arthur Leal

Na madrugada de domingo (11), Alan Tonse e Larissa Rodrigues foram mortos dentro de uma residência em Ceilândia, no Distrito Federal. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga o caso como duplo homicídio. Segundo relatos de testemunhas, Alan teria entrado em conflito com o suspeito após intervir em uma situação de violência doméstica envolvendo a companheira dele. Ainda de acordo com esses relatos, a intervenção teria motivado ameaças contra Alan. As circunstâncias e a motivação do crime ainda estão sob investigação.

O caso levanta questões sobre como agir diante de situações de violência doméstica contra a mulher e qual é o papel das testemunhas na prevenção desses crimes. O medo de represálias e a intimidação podem dificultar as denúncias por parte das vítimas, tornando a participação de terceiros uma alternativa para comunicar situações de violência às autoridades. Em casos de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo número 190. Já o Ligue 180 recebe denúncias e oferece orientação sobre os serviços de atendimento à mulher.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP/DF), no primeiro semestre de 2026, foram registradas 11.206 ocorrências enquadradas na Lei Maria da Penha. Desse total, 43,1% correspondem a crimes relacionados à violência física, como lesão corporal, vias de fato e tentativa de feminicídio. Entre janeiro e setembro deste ano, o Distrito Federal registrou 17 casos de feminicídio, contra 22 no mesmo período de 2025, uma redução de aproximadamente 23%.

A subsecretária de Enfrentamento à Violência Doméstica da Secretaria da Mulher do Distrito Federal (SMDF), Maíra Castro, orienta a população a ficar atenta aos sinais de violência e não ignorar situações suspeitas. “Nossa orientação é que os sinais de violência não sejam ignorados. Às vezes, vizinhos e pessoas próximas ouvem gritos e barulhos que podem indicar uma agressão. A omissão pode custar a vida de alguém. A expressão ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’ está ultrapassada e é perigosa. Estamos falando de vidas humanas. Por isso, é fundamental procurar ajuda e recorrer aos canais oficiais de denúncia”, afirma.

Maíra também ressalta a importância de tomar precauções ao comunicar casos suspeitos, evitando colocar a vítima ou quem denuncia em risco. Entre as orientações está não confrontar diretamente o possível agressor e priorizar o acionamento das autoridades competentes. As denúncias podem ser feitas à Polícia Militar, pelo 190, em situações de emergência, ou pelo Ligue 180. Em condomínios, porteiros e síndicos também podem ser comunicados sobre situações suspeitas, desde que isso não coloque a vítima em risco. O anonimato é garantido em casos de denúncia via ligação.

“Orientamos que a pessoa nunca confronte diretamente o agressor, para evitar que a situação se agrave. Se presenciar uma agressão em andamento, o mais correto é acionar a polícia. Mesmo quando há apenas sinais, como gritos e barulhos suspeitos, é importante fazer a denúncia. Também existe a possibilidade de uma intervenção indireta, como chamar a atenção por meio de barulhos ou avisar a portaria e o síndico de um prédio. O importante é tomar uma atitude em favor da vítima, sem colocar a própria segurança em risco”, explicou a subsecretária.

Sobre o acolhimento de mulheres vítimas de violência pela sociedade civil, o Jornal de Brasília ouviu a diretora administrativa do Instituto Nós por Elas, Thainá Moraes. “É importante acolher a vítima e compartilhar informações que possam ajudá-la a reconhecer a situação que está vivendo. Hoje, temos mais acesso à internet, à televisão e a outros meios de informação, e esse conhecimento pode ser fundamental para que a mulher consiga identificar se está passando por uma situação de violência, independentemente do tipo”, afirma. Thainá ressalta que a violência não se restringe às agressões físicas, podendo também ser psicológica, patrimonial, moral, sexual ou vicária, quando o agressor utiliza familiares ou pessoas próximas para causar sofrimento à vítima.

Thainá Moraes explica como o Instituto Nós por Elas atua na conscientização e na prevenção da violência contra a mulher. “O Instituto promove, principalmente nas redes sociais, vídeos e campanhas que ajudam a desmistificar a violência doméstica e explicar seus diferentes tipos, para que as mulheres consigam identificar possíveis situações de violência. Também divulgamos informações sobre as leis que garantem proteção às vítimas, como a Lei Maria da Penha, para que elas conheçam seus direitos e saibam onde buscar apoio. Além disso, trabalhamos com a campanha Sinal Vermelho, que permite uma forma silenciosa de pedir ajuda. A mulher faz um ‘X’ vermelho na palma da mão para sinalizar que precisa de auxílio em estabelecimentos participantes. Essa iniciativa é especialmente importante para quem está próximo do agressor e não consegue pedir ajuda abertamente.”