O dólar abriu em queda de mais de 4% e voltou a ficar abaixo do patamar de R$ 5 nesta segunda-feira (5), após o resultado do 1º turno das eleições de domingo (4) reforçar a expectativa de alternância de poder na Presidência da República.
O ex-senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o 1º turno na liderança, com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula (PT), atual presidente.
Por volta das 9h20, a moeda americana recuava 4,59%, a R$ 4,975. Na mínima, o dólar chegou a cair 4,66%, a R$ 4,973, no menor valor desde abril deste ano.
Analistas ouvidos pela Folha também esperam que a Bolsa suba nesta segunda-feira. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25. Nunca houve uma virada do segundo colocado na disputa pela Presidência da República no segundo turno.
Parte dos investidores avalia que uma eventual alternância de poder poderia resultar em uma condução fiscal mais sólida, com impacto sobre a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.
Uma percepção de maior controle sobre a trajetória da dívida pode reduzir o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo e, consequentemente, aliviar a pressão sobre a curva de juros. Taxas mais altas encarecem o crédito para empresas e reduzem a expectativa de lucro das companhias, o que tende a pesar sobre a Bolsa.
O movimento também pode ocorrer no sentido contrário. Para analistas, um eventual governo do candidato do PL poderia beneficiar os ativos de renda variável. O BTG Pactual projeta que, se Flávio Bolsonaro vencer, as ações brasileiras poderiam voltar rapidamente à média histórica dos últimos dez anos, o que implicaria um potencial de alta de 11% a 20%.
O desempenho do ex-senador fluminense ocorreu em meio a uma onda bolsonarista, com vitórias estaduais e no Senado que evidenciaram a força do PL e de seus aliados. Nomes da equipe econômica do candidato do PL também são bem recebidos pela Faria Lima, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, Adolfo Sachsida.
A Bolsa de Valores encerrou o último pregão antes do 1º turno das eleições, na sexta (2), com alta de 2,62%, aos 192.114 pontos. O índice não alcançava esse patamar desde 22 de abril, quando fechou aos 192.889 pontos. A última máxima histórica atingida pelo Ibovespa foi no pregão de 14 de abril deste ano, com fechamento aos 198.657 pontos.
Mais cedo, os ADRs (recibos de ações) da Petrobras chegaram a disparar quase 10% nas negociações antes da abertura do mercado na Bolsa de Nova York em reação a liderança de Flávio.
Os papéis da empresa subiam 9,93%, a US$ 23,80, por volta das 6h45 (horário de Brasília). Na sexta-feira (2), a ação da petrolífera fechou cotada a US$ 21,65. No mesmo horário, o ADR da Vale tinha um impulso de 6,03%, a US$ 14,59, e o da Embraer tinha alta de 5,72%, a US$ 79,51.
Na sexta-feira, Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, afirmou que o movimento refletiu, entre outros fatores, o fechamento de posições vendidas, os chamados shorts, o que ajudou a impulsionar ações que vinham pressionadas, como Hapvida. Ele também vê sinais de volta seletiva do investidor estrangeiro à Bolsa, enquanto os investidores institucionais brasileiros ainda estão pouco alocados em ações.
O movimento ganhou impulso já pela manhã após a divulgação dos dados de emprego dos Estados Unidos, que mostraram a criação de 29 mil postos de trabalho em setembro, abaixo dos 90 mil projetados por economistas consultados pela Reuters. A taxa de desemprego ficou em 4,2%, ante projeção de 4,1%. O dado de agosto foi revisado de 162 mil para 133 mil vagas.
Os dados reforçaram a percepção de desaceleração do mercado de trabalho americano, reduzindo a pressão sobre o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) para manter uma política monetária mais restritiva. Com isso, investidores passaram a considerar menos provável uma nova alta dos juros, favorecendo ativos de risco.
Os Treasuries, títulos de dívida do governo americano, começaram o dia em queda após a divulgação dos dados, mas voltaram a subir durante a tarde. Às 17h10, os títulos de dez anos tinham rendimento de 5,284%, alta de 0,88% , enquanto os de 30 anos rendiam 5,632%, avanço de 0,52%. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de principais divisas, fechou em queda de 0,21%.
Em Wall Street, as Bolsas também fecharam em alta. O S&P 500 subiu 0,79%, o Dow Jones avançou 0,49% e o Nasdaq teve alta de 1,19%.
Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG, diz que o resultado de emprego dos EUA abaixo do esperado reduz a possibilidade de uma nova alta de juros pelo Fed na próxima reunião, marcada para os dias 27 e 28 de outubro. Segundo ele, porém, o dado não encerra o debate sobre uma alta ainda neste ano. O EFG continua esperando uma elevação de 0,25 ponto percentual em dezembro.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, também destacou a diferença entre o resultado e as expectativas. Segundo ele, além da criação de vagas abaixo do esperado, a revisão do dado de agosto também chamou a atenção. O número passou de 162 mil para 133 mil postos de trabalho.
Castro Alves também destacou a desaceleração do crescimento dos salários. A expectativa era de avanço de 0,3%, mas o resultado foi de 0,1%. A taxa de desemprego, por sua vez, subiu para 4,2%.
Os investidores também acompanharam as incertezas no mercado de petróleo. Às 17h12, o Brent era negociado em alta de 0,59%, cotado a US$ 102. Em 26 de setembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, rejeitou uma proposta do Irã para um plano de sete dias que previa a reabertura do estreito de Hormuz e a interrupção das hostilidades. Desde então, houve novas tratativas por meio de mediadores do Catar, mas ainda não houve um acordo.
No mercado doméstico, investidores também repercutiram a divulgação da PIM (Pesquisa Industrial Mensal). A produção industrial recuou 0,6% em agosto ante julho, resultado abaixo das expectativas.
Para Rodolfo Margato, economista da XP, o resultado levou a uma revisão da perspectiva para o crescimento da economia no terceiro trimestre. A produção industrial recuou abaixo das expectativas da XP, de queda de 0,2%, e do mercado, de alta de 0,1%.