Estou em Lisboa, no Bairro Alto Hotel, mas bastou abrir o celular para voltar direto à televisão brasileira. E eu confesso: assistindo a Erika Hilton aparecer no Programa do Ratinho, na noite de sexta-feira (25), para exercer um direito de resposta determinado pela Justiça, só consegui pensar numa pessoa: Silvio Santos.
Gente, eu fico imaginando Silvio vendo essa cena. A emissora que ele criou tendo de abrir espaço, por decisão judicial, para uma deputada transexual responder ao vivo às declarações de um de seus maiores apresentadores. E não foi porque o SBT resolveu fazer um gesto espontâneo: a emissora recorreu da decisão, conseguiu suspender temporariamente a obrigação e, depois, perdeu na segunda instância.
Erika foi direta. Disse que Ratinho havia negado diante do país que ela fosse mulher e defendeu que liberdade de expressão não pode servir para discriminar. O caso nasceu em março, depois que o apresentador questionou a escolha dela para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e fez declarações sobre sua identidade de gênero. O TJ-SP entendeu que houve uma passagem da crítica política para a desqualificação pessoal.
E é aqui que a história ganha uma ironia que televisão nenhuma conseguiria roteirizar. A relação de Silvio Santos com a comunidade LGBT+ foi cheia de contradições. Ele foi criticado por falas consideradas homofóbicas, mas também abriu durante décadas seu palco para transformistas e, em 2014, seu programa formalizou a aceitação de mulheres trans no auditório feminino. Em 2022, chegou a defender publicamente que uma pessoa trans pudesse fazer sua transição para viver de acordo com sua identidade. Portanto, reduzir essa história a “Silvio deu trabalho para a comunidade gay” não conta tudo.
Mas que cena. Décadas depois de tanta discussão sobre diversidade dentro da televisão brasileira, uma mulher trans ocupa justamente a tela do SBT para dizer, por força de uma decisão judicial, que merece ter sua identidade respeitada. E dentro do Programa do Ratinho.
Lá de Lisboa, eu só consigo imaginar o homem do Baú assistindo a esse capítulo. Porque, se tem uma coisa que Silvio entendia como poucos, era televisão. E isso aí, meus amores, foi televisão com ironia histórica suficiente para dispensar qualquer roteiro.