A relação empresarial entre Fabrício Stevan e Francisley Valdevino da Silva, conhecido como “Sheik dos Bitcoins”, ganhou novos contornos em documentos judiciais relacionados à Orbank. Decisão publicada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) este ano reproduz elementos analisados pelas instâncias anteriores que apontam participação societária da Stevan Administração e Participações Ltda. na empresa e tratativas entre Fabrício e Francisley na condução dos negócios.

O caso chama atenção pelo histórico de Francisley. O empresário tornou-se alvo da Operação Poyais, deflagrada pela Polícia Federal para investigar fraudes envolvendo investimentos em criptoativos. Em 2024, ele foi condenado pela Justiça Federal do Paraná a 56 anos e quatro meses de prisão por crimes relacionados ao esquema. A decisão é passível de recursos.

Fabrício Stevan, citado em decisões judiciais que tratam da relação societária envolvendo a Orbank (Reprodução/Internet).

No caso da Orbank, os documentos judiciais revelam uma relação empresarial que vai além de um contato ocasional. Segundo decisão do STJ, a Stevan Administração e Participações detinha 30% do capital social da Orbank e realizou aporte de 135 milhões de reais na empresa.

Em decisão publicada em fevereiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) registrou um ponto relevante sobre a relação entre as empresas. Ao reproduzir as conclusões das instâncias anteriores, a Corte destacou que não havia indícios de que a Stevan Administração fosse apenas uma sócia formal ou meramente investidora da Orbank.

A decisão cita ainda relatório da Polícia Federal que apontou a existência de “livre tratativa” entre Fabrício Stevan e Francisley Valdevino na condução dos negócios da empresa.

Esses elementos foram considerados na discussão judicial que resultou na desconsideração da personalidade jurídica da Orbank, permitindo que o patrimônio dos sócios fosse alcançado. Ao analisar o recurso, o STJ manteve o entendimento das instâncias anteriores, sem reexaminar as provas do processo, procedimento vedado nessa etapa pela Súmula 7 da Corte.

A medida, entretanto, não deve ser interpretada isoladamente como prova de participação de Fabrício em fraude. A própria decisão cita entendimento segundo o qual, nas relações de consumo analisadas sob a chamada teoria menor, a desconsideração da personalidade jurídica pode ocorrer diante da insolvência da empresa sem a necessidade de comprovação de fraude ou abuso de direito.

A relação entre Fabrício e a Orbank já havia chamado a atenção do Congresso Nacional. Em agosto de 2023, a CPI das Pirâmides Financeiras da Câmara dos Deputados aprovou sua convocação para prestar esclarecimentos sobre o conhecimento que possuía a respeito da empresa, descrita no próprio requerimento parlamentar como um suposto banco criado por Francisley.

Convocado na condição de testemunha, Fabrício foi chamado a explicar à CPI sua relação com a Orbank. Segundo documentos da comissão, a Stevan Administração mantinha participação societária na empresa e realizou um aporte de R$ 135 milhões. A convocação, no entanto, não representou atribuição de responsabilidade criminal a Fabrício.

Francisley, por sua vez, já havia sido preso preventivamente durante os desdobramentos da Operação Poyais. A investigação da Polícia Federal apurou suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, contra a economia popular, lavagem de dinheiro, estelionato e organização criminosa. O caso envolvendo a Rental Coins atingiu milhares de investidores e movimentou bilhões de reais.

Outro ponto relatado à reportagem envolve a relação de confiança construída no meio cristão. Sob condição de anonimato, uma fonte afirma que Fabrício teria apresentado o negócio a pessoas ligadas a esse círculo como uma oportunidade confiável, utilizando a proximidade e a credibilidade estabelecidas nesse ambiente.

O relato também aponta que essa confiança teria influenciado a decisão de pessoas que posteriormente investiram recursos. A reportagem, no entanto, não teve acesso a registros que permitam dimensionar quantos investidores chegaram ao negócio dessa forma ou confirmar que a religião tenha sido utilizada deliberadamente como estratégia de captação.

Segundo fontes ouvidas pela coluna, Fabrício Stevan estaria atualmente ligado à exploração mineral em Aripuanã, no interior de Mato Grosso. Os relatos levantam questionamentos sobre a regularidade da atividade e sobre as autorizações necessárias para sua operação. A informação, no entanto, ainda não foi confirmada por documentos oficiais consultados pela reportagem.

De acordo com a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), há uma distinção importante entre as situações de Francisley Valdevino e Fabrício Stevan. Francisley foi preso durante a Operação Poyais e posteriormente condenado em primeira instância no processo relacionado ao esquema de criptoativos.

Já Fabrício aparece nos registros relacionados à Orbank por meio da Stevan Administração, que detinha 30% do capital social da empresa e realizou aporte de R$ 135 milhões. A mesma decisão cita relatório da Polícia Federal que apontou “livre tratativa” entre Fabrício e Francisley na condução dos negócios da Orbank.

De acordo com documentos da Câmara dos Deputados, a relação também chegou à CPI das Pirâmides Financeiras, que convocou Fabrício, na condição de testemunha, para prestar esclarecimentos sobre seu conhecimento a respeito da Orbank. Até o momento, não há nos documentos citados decisão que atribua a Fabrício responsabilidade criminal pelos crimes pelos quais Francisley foi condenado.

Fabrício Stevan ao lado do ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, à esquerda, e do secretário-executivo Irajá Lacerda (Reprodução/Internet).

Até o momento, os registros oficiais demonstram a existência de uma relação societária milionária, tratativas empresariais mencionadas em relatório da Polícia Federal e uma ligação com a Orbank que chegou à Justiça e ao Congresso Nacional.