Lindezas, estou no ônibus Primeira Classe a caminho do Rock in Rio e assistindo um vídeo que minha petsitter mandou da minha gatinha Aurora dormindo na minha cama. Eu não aguento com elaaaa, gentee.

Eis que minhas amigas chamam a minha atenção falando sobre programa de drag queens que conseguiu reunir vogue paraense e kuduro baiano em um único episódio.

A série documental “Drag Ataque”, com direção de Vinícius Gouveia, segue a temporada com episódios novos, toda sexta-feira, às 21h, no Fashion TV Brasil, disponível nas principais operadoras do país. A série mergulha no universo artístico das drag queens do Norte e Nordeste do Brasil, em 12 episódios, que serão exibidos semanalmente. Com produção da Plano 9, a série tem o fomento da Ancine | BRDE | FSA, o incentivo do Funcultura | Fundarpe | Secretaria de Cultura de Pernambuco e PNAB - PE - Programa Nacional Aldir Blanc | Pernambuco.

No episódio 5, "Drag Dança", da série documental "Drag Ataque", exibida pelo Fashion TV, duas linguagens de dança que dificilmente se encontrariam fora da drag dividem o mesmo palco: o vogue da cultura ballroom, representado por Belém através de Desirée Lo Bianco, e o kuduro, ritmo angolano que virou marca registrada de Saphyra Luz em Salvador. O resultado é uma coreografia só, construída em tempo real dentro do episódio, numa mistura que, nas palavras das próprias artistas, é "louca, gostosa, brasileira, nossa".

Desirée Lo Bianco - Foto: Divulgação

Desirée Lo Bianco (Belém, PA) descreve a si mesma, ao estilo da cultura ballroom, como uma "unique travesti, legendary travesti", referência direta ao vogue, disciplina que a apresentou a uma tradição criada por mulheres trans e travestis negras e periféricas, e que hoje ecoa no Pará. Ela, que montava escondida no banheiro desde os 13 anos, descreve a cena drag de Belém como um exercício de fazer muito com pouco: "a gente faz uma coisa gigantesca com nada". No episódio, ela também revela que foi a arte drag quem a ajudou a se identificar como mulher trans: "o drag foi a porta pra eu me identificar como uma mulher trans, como uma travesti, e me ajudou muito nesse negócio de autoestima".

Saphyra Luz (Salvador, BA) é conhecida na Bahia como "a rainha do kuduro", ritmo angolano que, segundo ela, carrega o mesmo peso marginalizado de gêneros como funk e pagode. Hoje também ostenta o título de Rainha LGBT do Carnaval de Salvador, reconhecimento conquistado depois de anos disputando concursos de beleza drag pela Bahia. Essa trajetória de sucessivas vitórias, segundo ela, mudou a forma como passou a ser vista nas ruas: "as pessoas viram que o que eu faço é arte". 

Saphyra Luz - Foto: Divulgação

Juntas, as duas constroem uma coreografia que mistura vogue e kuduro, movimento de braço com movimento de perna, referências de Belém com referências de Salvador. "Ela vai trazer elementos do estado dela, eu vou trazer do meu; ela vai trazer elementos do voguing, eu vou trazer do kuduro, e a gente vai juntar tudo, vira um mix de coisa", resume Saphyra. O resultado dialoga diretamente com o brega funk, gênero também retratado no episódio 2 da série. Essa mistura só reforça como a cultura popular brasileira atravessa praticamente todas as disciplinas mostradas em "Drag Ataque".

O episódio expõe ainda o quanto o corpo drag carrega mais do que técnica. "A cada momento que eu subo no palco, que eu boto uma peruca, que eu boto uma maquiagem, eu tô enfrentando um demônio, tô enfrentando meus preconceitos… e eu tô me superando!", resume Saphyra. 

SERVIÇO

Sobre a série "Drag Ataque", dirigida por Vinícius Gouveia e produzida pela pernambucana Plano 9, estreou em 14 de agosto no Fashion TV, com 12 episódios semanais dedicados à cena drag do Norte e Nordeste do Brasil. Cada episódio reúne duas artistas em uma disciplina diferente (moda, música, maquiagem, dança, atuação, circo) sempre em espaços reais da vida noturna.

Onde assistir Episódios novos: sextas, 21h, no Fashion TV Reprises: sáb (09h), dom (19h), seg (07h e 13h15), ter (22h30), qua (10h30)

Episódio 6 - DRAG ATUA
A jovem Condessa Cabalista se une à sexagenária Sharlene Esse para preparar cenas de comédia e drama, sob a orientação do diretor e professor Marcondes Lima.

Episódio 7 - DRAG NO CLIPE
Carmen Camaleonte e Karmaleoa retornam apenas com figurinos, fundo verde e um sonho: transformar suas composições em um videoclipe.

Episódio 8 - DRAG DE BOATE 2
As drag queens convocam as performers Salário Mínimo e Dercy Fortunato para uma noite de performances caricatas e irreverentes no Loba Pub.

Episódio 9 - DRAG NO CIRCO
Ruby Nox se torna a mãe drag da dupla circense Vitor Lima e João Cavalcanti, enquanto aprende com eles truques acrobáticos para levar sua performance a novos ares… no circo!

Episódio 10 - DRAG NA RUA
O bailarino Edson Vogue e a drag queen  Nola Criola ocupam as ruas do Recife Antigo com uma performance de voguing em plena luz do dia e frente a um público que nunca viu drags antes.

Episódio 11 - DRAG APRESENTA
Torta na cara Drag, cultura drag queen e os bastidores do Drag Ataque: Ruby Nox e Safira Blue apresentam esse programa metalinguístico sobre o poder da comunicação das drags.

Episódio 12 - DRAG DE FESTA
A produtora e DJ Safira Blue apresenta sua festa mensal. Ela e drags de outras gerações compartilham a força da cultura das baladas na vida de pessoas LGBTQIAPN+.

Bios participantes EP 05 — Dança

Desirée Lo Bianco (Belém, PA)

Drag travesti da Amazônia, que tem como referência o coletivo As Themonias. Começou a se montar escondida, aos 13 anos, por medo — hoje é reconhecida publicamente como referência da cena amazônica. Foi ao começar a fazer drag que se reconheceu mulher trans, uma descoberta de identidade que aconteceu junto com a própria trajetória artística documentada pela série. Equilibra uma tradição internacional, o ballroom, criada por mulheres trans e travestis negras nos Estados Unidos, com uma identidade regional muito específica: a cena paraense, onde ela mesma descreve o hábito de "fazer uma coisa gigantesca com nada".

Saphyra Luz (Salvador, BA)

Conhecida como "a rainha do kuduro", construiu a carreira em torno de afrofuturismo, candomblé e ancestralidade africana. Sua coleção de títulos inclui Garota Tropical, Garota Marujo, Miss Lauro de Freitas, Miss Recôncavo, Top Drag NUPAF, Rainha LGBT, Top Drag Picos-Piauí, campeã de Batalha de Lipsync, Deusa do Ébano Drag Queen, Estrela Brilhante, Miss Salvador, Rainha LGBTQIA+ do Carnaval de Salvador e Rainha da Diversidade da Junina Forró Mandacaru, entre outros. Foi a partir da validação dos concursos de beleza que deixou de ser vista como "a bichinha que se monta" no bairro e passou a ser reconhecida como artista. Hoje uma militância seletiva e consciente, resumida em sua própria fala: "quando vejo que tem espaço pra militar, eu faço; se não tem, prefiro me manter segura".