GABRIELA CECCHIN, CRISTIANE GERCINA E GUILHERME MATO
FOLHAPRESS


A greve dos empregados da Caixa Econômica Federal, iniciada na semana passada, pode atrasar a contratação de crédito do Move Brasil e outras operações que dependem da análise e do atendimento do banco, como o financiamento imobiliário.

É o caso de Gabriel Dahlberg, 24, motorista de aplicativo há dois anos, que não consegue obter na Caixa os documentos que precisa entregar à concessionária para avançar na compra de um carro pelo Move Brasil. Ele voltou à agência para dar continuidade ao financiamento, mas conta que encontrou a unidade em greve.

A Caixa afirma que as contratações do Move Brasil seguem normalmente e que podem ser feitas de forma digital, pelo WhatsApp do banco ou presencialmente nas agências. A instituição diz ainda que, como agente financeiro do programa, segue as regras definidas pelo governo.

O banco público apresentou, na madrugada desta quinta-feira (17), uma nova proposta para o plano de saúde dos bancários. A paralisação continua, no entanto, até segunda (21), quando deverá haver assembleia de funcionários.

Antes disso, Dahlberg já havia enfrentado dificuldades para conseguir o crédito. Quando o Move Brasil começou, procurou uma concessionária, mas o financiamento não foi aprovado. Cerca de dois meses depois, buscou a Caixa e conseguiu uma pré-aprovação com base em sua renda. Segundo ele, o gerente orientou que regularizasse seu nome na Serasa, o que ele fez antes de retornar ao banco.

O motorista afirma que poderia tentar continuar o processo pelo aplicativo da Caixa, mas prefere resolver a operação presencialmente. "Gosto de ir na agência, conversar com o gerente e resolver tudo pessoalmente", afirma.

Outro motorista de aplicativo, que pediu para não ser identificado, também relatou preocupação com o prazo para concluir a operação. Ele disse que estava com receio de perder a oportunidade porque o prazo original do programa terminaria na terça-feira (15) e não conseguia obter informações do banco sobre o andamento do crédito. O motorista afirmou ter ficado aliviado após o governo prorrogar o programa.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na segunda-feira (14) a lei que garante a continuidade do Move Brasil, que tem R$ 30 bilhões em crédito subsidiado. O programa, que financiou até agora 48 mil automóveis e 19 mil motocicletas, seguirá até os recursos acabarem.

GREVE PODE ATRASAR ETAPAS DE FINANCIAMENTOS IMOBILIÁRIOS

No crédito imobiliário, o impacto da paralisação pode aparecer em diferentes momentos da contratação. Segundo profissionais que acompanham operações da Caixa, há relatos de atraso na análise de propostas, na liberação de documentos e na assinatura de contratos.

O especialista em financiamento imobiliário Murilo Arjona afirma que o principal problema que observou está na etapa de conformidade, que envolve a conferência dos documentos do comprador, do vendedor e do imóvel antes da elaboração da minuta e da assinatura do contrato.

"Já estamos observando uma conformidade mais lenta. Isso pode retardar a liberação de minutas, a correção de pendências e a assinatura dos contratos. O processo não necessariamente para, mas pode levar mais tempo para avançar", afirma.

Segundo Arjona, as ordens de serviço de engenharia voltaram a ser solicitadas após o retorno da equipe de tecnologia, permitindo o agendamento de avaliações e vistorias. Essa etapa verifica as condições e o valor do imóvel que servirá de garantia ao financiamento. A retomada, porém, não significa que toda a operação esteja normalizada.

"Isso não representa a normalização de toda a operação, porque a conformidade e outras áreas continuam sujeitas à greve", afirma.

Gerentes de agências relataram à reportagem que os efeitos variam conforme a unidade e a área envolvida. Em algumas agências, funcionários que não aderiram à paralisação conseguem receber documentos, mas outras etapas dependem de setores regionais ou de áreas que estão com atendimento afetado.

A paralisação frustra clientes buscando solucionar demandas relacionadas a financiamentos imobiliários. O líder de produção Michel Nascimento, 31, por exemplo, precisava resolver pendências relativas a documentos de um imóvel que mantinha com uma ex-companheira. Na manhã desta quinta, saiu de Cotia, na região metropolitana de São Paulo, até uma agência no centro da capital paulista.

Segundo ele, o problema deveria ser solucionado na agência em que contratou o financiamento e, por isso, o deslocamento. No entanto, por causa da greve, não pôde acessar a área de atendimento. "É uma vergonha. Deveriam comunicar. Já liguei várias vezes para tentar resolver e nada", afirmou ao deixar o local sem resolver pendência.

Ivo Barreto, 80, esteve na mesma agência, na região central da capital paulista, para tentar sacar valores de uma aplicação. Também saiu sem resolver o problema.

"Está tudo parado. Os guardas não deixam subir. Há semanas tento resolver por ligação, mas não funciona", disse. Segundo ele, antes, bastava ir até o local e conversar com os bancários para conseguir sacar o valor. Agora, vai ter que aguardar até o fim da greve para poder acessar o investimento.

A Caixa afirma que seus canais digitais continuam disponíveis durante a greve. Clientes podem usar o aplicativo Caixa, Internet Banking, Caixa Tem, WhatsApp Caixa e outros canais remotos para serviços que possam ser realizados digitalmente.

O banco diz afirma que não houve alteração nos prazos dos serviços relacionados ao FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).


"A Caixa mantém disponível o Aplicativo FGTS, que permite aos trabalhadores realizar solicitações de saque do FGTS e acompanhar o andamento dos pedidos de forma totalmente digital", diz.

Segundo a instituição, todas as modalidades de saque podem ser solicitadas pelo aplicativo, com exceção daquela que utiliza os recursos para moradia própria. O trabalhador também pode indicar uma conta bancária de sua titularidade, de qualquer instituição financeira, para receber os recursos, sem necessidade de comparecer a uma agência.

A Caixa diz ainda que os processos internos do FGTS têm etapas automatizadas e controles com supervisão humana, conforme o tipo de solicitação. "As solicitações de saque do FGTS, em geral, são processadas em até cinco dias úteis", afirma.

Para saques por doenças graves, o banco informa que o prazo inicial é de 30 dias úteis, contados a partir do recebimento do pedido, para avaliar a situação e emitir parecer sobre o caso.

No caso do Move Brasil, o banco público informa que a contratação pode ser feita pelo WhatsApp 0800 104 0104 ou presencialmente nas agências. Para motoristas de aplicativo, o processo também exige cadastro e validação no programa antes da contratação do financiamento. A aprovação do crédito, porém, depende da análise feita pela instituição financeira.

No financiamento imobiliário, a orientação de profissionais é reunir e enviar os documentos, corrigir eventuais pendências e acompanhar com o banco ou correspondente o andamento das etapas que não dependam de atendimento presencial.