Uma pesquisa recente com 1.709 adultos nos Estados Unidos, divulgada pelo site especializado em relacionamentos com IA AI Girlfriend Coach, trouxe um número que já está circulando pelas redes sociais americanas: 50,5% dos entrevistados afirmam que um relacionamento romântico ou sexual com uma inteligência artificial pode, sim, ser considerado traição.

E o mais curioso: quem já testou um app de “namorada” ou “namorado” de IA é justamente quem mais leva a sério a ideia de que isso é traição — não o contrário.

O que a pesquisa perguntou

O estudo, batizado de AI Romance and Modern Relationships, entrevistou 2.150 adultos americanos entre 26 e 27 de agosto de 2026, com 1.709 respostas aproveitadas após uma triagem de qualidade. A pergunta central era direta: “O relacionamento romântico ou sexual do seu parceiro com uma IA seria traição?”

As respostas se dividiram assim:

  • 33,4% disseram que qualquer interação romântica ou sexual com uma IA já conta como traição
  • 17,1% disseram que só vira traição se houver apego emocional
  • 21,2% não chamariam de traição, mas ainda ficariam desconfortáveis
  • 28,3% disseram que não é traição, porque uma IA não é uma pessoa real

Somando os dois primeiros grupos, chega-se aos 50,5% que dão manchete. Mas o dado mais revelador, talvez, seja outro: 71,7% dos entrevistados — ou seja, mais de dois terços — disseram que chamariam de traição ou, no mínimo, ficariam incomodados. Só 28,3% descartaram completamente o problema.

Quanto mais próximo da IA, mais rígido o julgamento

Aqui está a virada que faz esse estudo valer a leitura: os grupos que têm contato real com apps de companhia de IA são os que mais endurecem o discurso sobre traição, não os que mais relativizam.

  • 80,6% dos usuários atuais de apps de namorada/namorado de IA disseram que isso pode ser traição
  • 60,2% dos ex-usuários concordaram
  • 44,0% de quem nunca usou concordaram

Ou seja: quem já viveu a experiência de “conversar” romanticamente com uma IA é quem menos aceita banalizar isso dentro de um relacionamento real. A hipótese levantada pelos próprios pesquisadores é que, quanto mais plausível emocionalmente a relação com a IA parece para alguém, mais difícil fica descartá-la como “apenas um software”.

Nem todo mundo está atrás de romance

Um dado que ajuda a entender o contexto: quando perguntados sobre o principal motivo para alguém usar uma companhia de IA, 56,6% dos entrevistados escolheram “ter alguém para conversar ou se sentir menos sozinho”. Apenas 10,3% apontaram afeto, romance ou sexo como motivo principal.

Isso muda a leitura do problema. Não se trata, na maioria dos casos, de pessoas buscando substituir um parceiro humano por uma IA sedutora — é gente lidando com solidão, ansiedade ou baixa autoestima que acaba encontrando conforto emocional em uma conversa disponível 24 horas por dia. O problema é que, para o parceiro de fora dessa relação, a linha entre “companhia” e “caso” nem sempre é tão clara.

Casados e noivos usam mais — e julgam mais

Outro achado que quebra expectativas: pessoas noivas ou casadas foram quase duas vezes mais propensas a já terem usado um app de namorada/namorado de IA do que solteiros (30,7% contra 16,3%). Mas isso não as tornou mais tolerantes — pelo contrário: 54,8% desse grupo disse que a IA pode ser traição, contra 42,2% dos solteiros. Entre mulheres noivas ou casadas, o número sobe para 39,8% considerando qualquer interação romântica com IA já como traição — o grupo mais rígido de toda a pesquisa.

Por que isso importa para o Brasil

O Brasil está entre os países com maior adoção de assistentes de IA no mundo, e aplicativos de companhia por IA já circulam nas lojas de apps brasileiras havia algum tempo, ainda sem o mesmo debate público que já começou nos EUA. Discussões sobre ciúme digital, “traição virtual” com chatbots e limites de relacionamento no ambiente online tendem a chegar por aqui com a mesma força — só que com atraso.

Vale lembrar: os números acima refletem exclusivamente a população americana entrevistada, não brasileiros. Mas servem como um retrato antecipado de um debate que provavelmente vai pipocar em rodas de amigos, terapia de casal e redes sociais brasileiras nos próximos meses — a pergunta “isso conta como traição?” não deve ficar restrita aos EUA por muito tempo.

O detalhe que a pesquisa não esconde

Vale destacar algo raro em pesquisas divulgadas por empresas do próprio setor: os responsáveis pelo estudo relataram publicamente que excluíram 441 respostas por inconsistências (respostas repetidas e tempos de preenchimento suspeitos), o que reduziu os números mais chamativos — o uso atual de apps de IA, por exemplo, caiu de 30,3% para 12,3% depois da limpeza dos dados. Como os próprios pesquisadores escreveram, “os números maiores renderiam manchetes melhores. Escolhemos os menores.” É um detalhe que dá mais credibilidade ao levantamento.

Quem quiser se aprofundar pode conferir a pesquisa completa sobre relacionamentos com IA, que inclui a metodologia, o questionário e os recortes por geração, gênero e estado civil.

Em resumo: metade dos americanos considera que namorar uma IA pode ser traição, e quem mais concorda com isso é exatamente quem já experimentou. É um sinal de que, à medida que os companheiros de IA ficam mais convincentes, as regras não escritas dos relacionamentos humanos vão precisar de atualização — no Brasil também.