Por Duda Barreto e Mariah Mergener

A 6ª Bienal Internacional do Livro de Brasília reuniu, durante a semana, desde rodas de conversas promovidas por coletivos de mulheres aa depoimentos de autoras que driblaram diagnósticos, idade e um mercado editorial ainda majoritariamente masculino. 

Representatividade e o peso da literatura escrita por mulheres 

Entre as participantes, Carla Nery, ou “Azul”, como prefere ser chamada, é comunicóloga de formação e pós-graduada em direção de arte.

Disléxica e portadora de outros diagnósticos, a autora compartilha como escrever nunca foi uma escolha para ela e sim um meio de descoberta.

  “A literatura não é terapia, mas ela é terapêutica, e muitas vezes escrever salva”, afirma. 

Sobre representatividade, Carla comenta como as protagonistas mulheres mudaram pouco por muito tempo.

Sempre descritas e vistas como prestativas e responsáveis, personagens femininas influenciam leitoras a se prenderem nesse estigma. “A gente demora um pouco a entender que a gente tem protagonismo”, reflete. 

Também chama atenção para como formatos de livros ligados historicamente a mulheres, como diários, foram deslegitimados pela crítica por muito tempo, usando o Diário de Anne Frank como exemplo de texto complexo tratado como “literatura menor”.

Segundo ela, o mesmo preconceito atinge a literatura infantil, campo em que atua: “não veem como livro de verdade, mas sim como um gracejo”, resume.

Literatura infantil e oportunidades

A pauta da literatura infantil em bienais provoca uma discussão sobre tornar a literatura mais viável para crianças, focando principalmente nas de escolas públicas.

Dedicada hoje 100% à escrita infanto-juvenil, Gabi Vasconcelos, 46 anos, é ex-professora formada em Letras Português/Espanhol e aposentada da Secretaria de Educação do DF.

Frequentadora assídua de feiras, ela acredita que Brasília ainda tem o que aprender com outros eventos do país. 

Após ter passado por diversas feiras, São Paulo e Paraty só este ano, a escritora cita a Bienal de Salvador como exemplo a seguir, visto que todas as crianças de escola pública portavam um vale livro durante o evento. 

“As crianças de escola pública precisam ser contempladas, né? O livro precisa chegar pra quem não tem acesso”, comenta Gabi defendendo que Brasília ainda tem muito para avançar nesta questão.

Sobre o olhar feminino na literatura, ela é direta: “A mulher tem aquela sensibilidade diferente, e estamos aí ganhando cada vez mais espaço”.

Às futuras escritoras, deixa um recado: “Não desistam dos seus sonhos e leiam muito, mulher é sempre mulher, gente guerreira, e tem a força que ninguém mais tem.” 

 Gabi Vasconcelos. Fotos por: Vitória Secundo. 

Roda de conversa

O Mulherio das Letras do DF, um movimento literário composto apenas por mulheres, promoveu uma roda de conversa entre poetisas e leitoras acerca da importância da poesia.

As autoras presentes ressaltaram a relevância da mulher na literatura, durante o bate papo. 

“Discutir sobre isso torna nós mulheres mais fortes e poderosas porque eu escrevo com intenção”, afirma Nara Fontes, escritora parte do projeto Mulherio. 

Ana Rossi, escritora e presidente do Sindicato dos Escritores no DF, compartilhou que sua carreira na literatura começou há 22 anos.

Ela conta que sua inspiração para começar a escrever surge através da poesia, pois acredita que é um gênero capaz de sintetizar a própria sensibilidade por meio das palavras. 

A escritora também declara que as mulheres devem ocupar seus espaços na literatura.

“A mulher escritora em situação de poder incomoda algumas pessoas. A gente precisa ocupar esses espaços porque a nossa voz feminina diz coisas que os homens não dizem”, finaliza. 

Roda de conversa promovida pelo Mulherio. Fotos por: Vitória Secundo. 

Coragem 

Florismar Gasparotto, de 74 anos, escritora de livros infantis, compartilhou que sempre foi apaixonada por literatura e escrita, mas que nunca havia publicado seus livros.

Há alguns anos, sofreu um AVC e a partir desse momento surgiu sua coragem para publicar suas histórias. 

Florismar assegura que o ambiente das editoras ainda possui mais homens do que mulheres, mas que é preciso continuar escrevendo e buscando ocupar esse espaço.

Ela ainda faz um apelo para que todas as mulheres que têm o desejo de publicar seus livros não desistam, que assim como ela, possuam a coragem de perseguir os próprios sonhos. 

Florismar Gasparotto. Foto por: Vitória Secundo

Leitoras

Isabelle Luiza, de 17 anos, conta que seu amor pela leitura existe há muito tempo. Sua paixão surge de viver as histórias junto dos personagens e poder idealizar um mundo que não existe. 

“Quando eu leio, foco apenas na leitura e esqueço tudo em volta. Eu entro dentro do livro”, dividiu Isabelle. 

Beatriz Andrade, de 18 anos e amiga de Isabelle, acredita que as mulheres possuem um jeito diferente e compreensivo de escrever. Ela também acha importante que as autoras ocupem cada vez mais o espaço literário. 

“Existem alguns livros que homens escrevem sobre determinados assuntos que eu não consigo me identificar, mas alguns livros escritos por mulheres me fazem me sentir acolhida. Eu me sinto compreendida”, finaliza Beatriz. 

Isabelle Luiza e Beatriz Andrade. Fotos por: Vitória Secundo

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira