SÃO PAULO, SP
FOLHAPRESS
A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro abalou a campanha do parlamentar à Presidência.
Flávio vinha tentando atribuir o escândalo do Banco Master ao PT e à esquerda, mesmo após o senador Ciro Nogueira (PP), que já foi ministro de Bolsonaro, ter sido alvo de uma operação da PF nas investigações sobre o caso.
Na campanha, além da proximidade com Vorcaro, Flávio também enfrenta dificuldades como o peso do sobrenome Bolsonaro, a falta de experiência em cargos no Executivo e um escândalo de corrupção que nunca foi inteiramente esclarecido.
Contato com Daniel Vorcaro
Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. A informação foi revelada em maio pelo site The Intercept Brasil, colocando o candidato do PL na teia do maior escândalo bancário do país.
Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões pela produção de "Dark Horse", e mensagens de setembro de 2025 mostram o senador cobrando mais recursos do ex-banqueiro —cinco dias após o Banco Central barrar a compra do Master pelo BRB e meses antes de Vorcaro ser preso, em novembro.
Flávio confirmou ter pedido os recursos, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens em troca. "O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", disse.
O senador também afirmou ter conhecido Vorcaro apenas em dezembro de 2024 —versão que contradiz o fato de seu número de telefone já constar na agenda do ex-banqueiro quando a Folha revelou o contato, dois meses antes da divulgação das mensagens. Na ocasião, Flávio havia negado qualquer contato com Vorcaro.
A revelação gerou reação até entre aliados. Romeu Zema chamou a relação de "imperdoável, um tapa na cara".
Discurso de moderado X defesa de anistia e de Bolsonaro
Flávio tem investido na imagem de político equilibrado e menos histriônico que o pai. Publicou vídeos defendendo creches, condenou ataques racistas ao jogador Vinicius Jr. e chegou a republicar uma ilustração sugerindo respeito à liberdade sexual.
O fato de ter se vacinado contra a Covid-19 é evocado por aliados como prova de distância em relação ao negacionismo paterno —ainda que Flávio tenha defendido a gestão de Jair na pandemia, chamando-o de responsável por "garantir a vacina nos braços de todos os brasileiros".
Mas o histórico do senador contradiz o discurso moderado. Em 2005, como deputado estadual no Rio de Janeiro, condecorou o ex-PM Adriano da Nóbrega —suspeito de matar um guardador de carros, preso na época da homenagem e morto anos depois numa troca de tiros com a polícia, quando era apontado como líder da maior milícia carioca.
Em 2016, o presidenciável minimizou a homenagem feita pelo pai ao coronel Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff.
Mais recentemente, disse à Folha que o candidato da direita eleito presidente deveria se comprometer a indultar Bolsonaro e, se preciso, usar a força para deter qualquer reação do STF (Supremo Tribunal Federal). Flávio negou que a fala tivesse tom de ameaça.
Falta de experiência em gestão pública
Flávio nunca ocupou um cargo no Executivo. Em sua trajetória política, foram quatro mandatos como deputado estadual e um mandato como senador —funções legislativas que não envolvem gestão direta de orçamentos, secretarias ou serviços públicos. A lacuna é apontada por adversários e por nomes do próprio campo conservador como um ponto fraco relevante numa disputa presidencial.
Ronaldo Caiado (PSD), também candidato à Presidência, já explorou o ponto, afirmando que Flávio não tem vivência para governar.
'Rachadinha'
O escândalo das rachadinhas marcou a trajetória política de Flávio Bolsonaro antes de ele se lançar à Presidência. A prática consistia, segundo investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro, em cobrar de volta parte do salário de funcionários do gabinete do então deputado na Assembleia Legislativa. O desvio foi estimado foi estimado em R$ 6 milhões de recursos públicos. Em 2020, o presidenciável foi denunciado formalmente sob acusação de liderar uma organização criminosa com esse fim.
As investigações foram encerradas após o STF e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem em 2021 as provas coletadas, sem que um processo criminal chegasse a ser aberto. Flávio recentemente classificou o caso como "espuma" e negou qualquer conhecimento da prática, atribuindo a responsabilidade ao ex-assessor Fabrício Queiroz. Em 2020, porém, o próprio senador admitiu que Queiroz pagava suas contas pessoais.
O arquivamento do caso, no entanto, deixou questões em aberto. Entre elas: qual era a origem do dinheiro vivo usado para pagar parte das despesas do senador, já que ele não realizou saques em volume correspondente e, até 2014, não tinha nenhuma fonte de renda declarada fora da atividade parlamentar?
Compras com dinheiro vivo
O MP-RJ identificou ao menos R$ 977 mil em gastos de Flávio sem origem comprovada entre 2010 e 2014, período em que ele e a esposa exerciam apenas cargos públicos, sem fonte de renda em espécie declarada. O dinheiro vivo teria sido usado para pagar impostos, móveis, plano de saúde e escola das filhas do senador.
A Promotoria também apontou indícios de lavagem de dinheiro na franquia da Kopenhagen que Flávio mantinha num shopping no Rio. O volume de depósitos em dinheiro vivo na conta da loja era desproporcional em relação a negócios semelhantes. A diferença entre os créditos na conta da empresa e o faturamento auferido pelos fiscais do shopping somou R$ 1,6 milhão. Para o MP-RJ, o estabelecimento teria sido usado para "esquentar" recursos obtidos ilegalmente.
Flávio sempre negou as irregularidades. "Se eu quisesse lavar dinheiro, eu abriria uma franquia, que tem o controle externo da franqueadora, que tem auditoria?", disse na época da investigação.
A Kopenhagen, porém, afirmou que não realizava "nenhum tipo de auditoria fiscal com seus franqueados".
Apoio ao governo Trump
Flávio Bolsonaro tem se posicionado como aliado próximo do governo Donald Trump, numa estratégia que seus adversários caracterizam como ameaça à soberania nacional.
Em março, em discurso na CPAC, o maior evento conservador do mundo, realizado nos Estados Unidos, o senador defendeu que o Brasil se torne o principal parceiro estratégico dos EUA no hemisfério —inclusive na exploração de minerais críticos e terras raras, recursos hoje disputados globalmente.
O discurso ocorre após a família Bolsonaro ter defendido que a anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro seria a solução para o tarifaço de 50% imposto por Trump a produtos brasileiros no ano passado —sobretaxa que o próprio ex-presidente admitiu ter "muito mais a ver com valores e liberdade do que com economia".
Para Lula, o discurso do adversário representa uma postura de "entreguismo" que a população precisa conhecer.
Rejeição
Flávio Bolsonaro tem rejeição de 46% dos eleitores, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto —o presidente Lula registra 45%. Num cenário em que ambos os principais candidatos lideram também esse quesito, o espaço para um terceiro nome é um trunfo dos adversários do senador dentro da própria direita.
A rejeição de Flávio, no entanto, tem uma característica que seus aliados enxergam como vantagem: ao contrário da de Lula, considerada cristalizada, a do senador seria herdada do pai e, portanto, passível de redução ao longo da campanha.
Eleitorado feminino
Assim como acontecia com o pai, pesquisas mostram dificuldades de Flávio para obter votos de mulheres.
Em simulação de segundo turno contra Lula, no Datafolha, Flávio marca 43% de intenções de voto no eleitorado geral, ante 47% do adversário. Ao se levar em conta apenas o eleitorado feminino, o placar favorável ao presidente vai a 51% a 38%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o código BR-04496/2026.
Flávio ainda enfrentou desgaste nesse segmento da sociedade por causa de aliados. Em junho, o influenciador Paulo Figueiredo disse que "mulher vota estatisticamente muito mal".
Além disso, naquele mês, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro gravou vídeo afirmando que fora maltratada e humilhada pelo candidato a presidente do PL. Posteriormente, ela disse que perdoava o enteado e os dois apareceram juntos publicamente.