Por Zé Américo*
A eleição presidencial acaba de ganhar um personagem que poucos levavam verdadeiramente a sério. O escritor e psiquiatra Augusto Cury, candidato do Avante, saltou de 2% para patamares próximos ou superiores a 10% das intenções de voto. Aparece com 11% em alguns levantamentos, 10% em outros e registra 8% no Datafolha. Mais importante que a variação entre os institutos é a tendência: Cury rompeu a barreira da irrelevância eleitoral e assumiu o papel de grande fato novo desta reta final.
Até pouco tempo, a campanha caminhava para uma disputa inteiramente dominada pela polarização. Lula chegou a alimentar a possibilidade de liquidar a eleição no primeiro turno. O crescimento de Cury, porém, amplia a dispersão dos votos e torna o segundo turno praticamente inevitável.
Mas como explicar a ascensão de um candidato com pouco tempo de televisão, estrutura partidária modesta e sem a máquina pública ou as grandes alianças que sustentam seus principais adversários?
A resposta talvez esteja menos na política tradicional e mais na psicologia do eleitor.
Há no Brasil um contingente expressivo de pessoas cansadas da guerra permanente entre esquerda e direita. São eleitores que não querem Lula, mas também rejeitam o bolsonarismo. Não se identificam com os extremos, não desejam participar de batalhas ideológicas e procuram alguma alternativa que lhes permita voltar a acreditar no futuro. Augusto Cury entrou exatamente nesse espaço.
Enquanto os adversários falam sobre medo, ameaças, perseguições e inimigos, ele oferece esperança. Em vez de convocar o eleitor para combater alguém, convida-o a sonhar com alguma coisa. Numa campanha dominada pela raiva, Cury procura falar de pacificação, saúde mental, equilíbrio e reconstrução emocional do país. Não é pouca coisa.
Campanhas eleitorais não são vencidas apenas com estatísticas, estruturas partidárias e programas de governo. Elas também dependem da capacidade de interpretar os sentimentos da sociedade. O eleitor vota com a razão, mas decide, muitas vezes, movido pela emoção. Vota contra aquilo que teme e a favor daquilo que deseja.
Como psiquiatra, escritor e contador de histórias, Cury conhece os caminhos da emoção humana. Durante décadas, construiu uma audiência falando sobre ansiedade, sofrimento, esperança e superação. Agora, transporta esse repertório para a política e estabelece uma conexão direta com uma parcela do eleitorado que se sente órfã de representação.
Cury percebeu que existe uma angústia coletiva à procura de uma narrativa. E passou a vender aquilo que toda campanha precisa oferecer: a possibilidade de um amanhã melhor.
Ainda é cedo para saber se esse crescimento continuará ou se encontrará um teto. Também chegará o momento em que o candidato precisará transformar mensagens inspiradoras em propostas concretas para a economia, a saúde, a segurança e o equilíbrio das contas públicas. Sonhos conquistam atenção, mas governar exige escolhas.
Por enquanto, entretanto, Augusto Cury já alterou o tabuleiro. Tornou-se o terceiro elemento de uma eleição que parecia condenada à repetição da velha polarização.
Na política, quem interpreta primeiro o sentimento das ruas ganha uma vantagem poderosa. Cury compreendeu que milhões de brasileiros não estão procurando mais um guerreiro. Estão procurando uma saída.
E, neste momento, o vendedor de sonhos encontrou um país disposto a ouvi-lo.
*José Américo Silva (Zé Américo)
Jornalista, publicitário e consultor de marketing político