Quando Carlo Ancelotti anunciar a última convocação de 2026, no dia 29 de outubro, o Brasil já terá decidido nas urnas quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Passada a eleição, o italiano tentará recuperar uma parcela dos holofotes para a seleção brasileira. A missão, desta vez, começa com uma dificuldade que nenhuma prancheta resolve: despertar interesse por amistosos contra Japão e Singapura.

Os dois jogos serão no Estádio Nacional de Singapura. Primeiro, os japoneses, em 14 de novembro, às 7h15 de Brasília. Depois, os donos da casa, no dia 17, às 7h. O torcedor terá de acordar cedo para acompanhar uma programação que dificilmente lhe tirará o sono na véspera. Será a despedida de um ano que, para a Seleção, parece ter terminado muito antes de dezembro.

O roteiro dá continuidade a uma escolha pouco ambiciosa. Na primeira sequência de amistosos depois da Copa, enfrentamos duas vezes a Austrália e uma vez a Índia. Vieram um empate por 1 a 1 e vitórias por 4 a 2 e 4 a 0. Resultados que podem alimentar estatísticas, mas oferecem pouco material para responder à pergunta que realmente interessa: o que o Brasil está fazendo para voltar a ser uma seleção confiável?

É preciso fazer uma distinção. O Japão tem organização, velocidade e capacidade para incomodar. Na segunda fase do Mundial, perdeu por apenas 2 a 1 para o Brasil. Não cabe colocá-lo no mesmo patamar de Singapura, adversário inédito da Seleção no futebol profissional. Justamente por isso, o encontro com os japoneses é a parte defensável de um pacote que, no conjunto, transmite mais acomodação do que ambição.

Não se exige uma final de Copa do Mundo a cada Data Fifa. Também existem dificuldades para encontrar adversários, sobretudo com os europeus envolvidos na Liga das Nações. Mas reconhecer essas limitações não obriga ninguém a aplaudir qualquer solução. Entre enfrentar as maiores potências e organizar uma sequência com Austrália, Índia e Singapura, deveria existir espaço para um planejamento mais exigente.

A impressão é que a lógica foi invertida. Existe uma janela no calendário, portanto é preciso convocar. Existe uma convocação, portanto é necessário marcar jogos. Existe um treinador de enorme prestígio, com remuneração estimada na casa dos R$ 5 milhões mensais, portanto é preciso colocá-lo em atividade. Cumpre-se a agenda, reúne-se o elenco e produz-se a aparência de movimento. Mas movimento não é necessariamente evolução.

Ancelotti não precisa justificar o salário com presença à beira do gramado. Precisa entregar um trabalho que permita identificar avanços. E a CBF tem a obrigação de oferecer condições para que esse trabalho seja submetido a testes relevantes. Uma goleada sobre um adversário muito inferior pode esconder os mesmos problemas que reaparecem quando faltam espaço, tempo para pensar e liberdade para jogar.

É claro que até um amistoso modesto permite observar jogadores e ensaiar alternativas. O problema é transformar essa utilidade mínima em justificativa permanente. Para uma seleção que precisa recuperar credibilidade, juntar atletas e distribuir minutos deveria ser o começo da preparação, nunca sua principal entrega. O torcedor precisa enxergar um time sendo construído, não apenas uma lista sendo renovada.

Nesse sentido, 2026 vai se despedindo como um ano inútil: muita expectativa e pouca perspectiva. Ainda haverá convocação, viagem, entrevistas e duas partidas. Mas o ano da Seleção já acabou. Acabou antes de acabar. E o mais difícil de assimilar é que, mantida essa lógica, 2027 tampouco promete muita coisa boa.

A coluna na edição impressa do Jornal de Brasília