DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)

A prisão do publicitário argentino Fernando Cerimedo, na última terça-feira (18), desatou denúncias de corrupção nos governos de Javier Milei, em seu país natal, e de Rodrigo Paz, na Bolívia -dois dos líderes que compõem a lista de políticos latino-americanos de direita e ultradireita para quem o profissional trabalhou nos últimos anos.


Os possíveis escândalos, no entanto, não são a razão de sua prisão, ao menos à primeira vista. Acusado de ser o autor intelectual de uma tentativa de homicídio contra sua ex-companheira, Cerimedo foi detido no aeroporto internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava pegar um voo para Buenos Aires.

Nadia Beller, 33, está internada na Clínica Las Américas, também em Santa Cruz de la Sierra, desde a noite de segunda-feira (17), quando dois homens desconhecidos atiraram contra ela e levaram seus pertences. Ela está na UTI após passar por uma cirurgia para retirada de fragmentos de projéteis do corpo.


Em diversas entrevistas para meios de comunicação, Beller disse que o roubo foi, na verdade, um atentado motivado por tudo o que ela sabe a respeito dos negócios do ex-parceiro, a quem também acusa de tê-la agredido em outras duas ocasiões.


"Devido à minha relação com Fernando Cerimedo, testemunhei os negócios obscuros realizados pela gestão Paz, pela esposa de Paz e pela família dela, com ele atuando como seu agente", afirmou Beller ao jornal El País. "Fernando me disse que a irmã de Milei estava envolvida em corrupção", continuou.


Em relação ao governo da Bolívia, Beller diz que Paz e sua esposa, María Elena Urquidi, têm "negócios com gasolina, diesel e ouro" e que o pagamento a Cerimedo é feito não com um salário, mas por meio de contratos com grandes empresas, de forma ilícita.


Ela diz também que Cerimedo "comanda um grupo de elite da polícia que pretendia prender Evo Morales", ex-presidente boliviano que está em uma selva na região de Cochabamba.


Em suas redes sociais, Paz prestou solidariedade à vítima, sem mencionar suas denúncias. "Instruí as autoridades competentes a conduzirem uma investigação completa, transparente e exaustiva até que os fatos sejam totalmente esclarecidos", afirmou o presidente. Já seu porta-voz, José Luis Gálvez, disse que não serão toleradas "acusações infundadas que carecem de provas conclusivas".


Quanto ao governo da Argentina, Beller afirma, de acordo com o jornal La Nación, que Milei "tinha um círculo íntimo muito corrupto" e que Natalia Basil, ex-esposa de Cerimedo, foi a responsável por vazar, em agosto do ano passado, áudios que mencionam supostos subornos na Agência Nacional para Pessoas com Deficiência, onde trabalhava.


Beller diz não saber detalhes sobre o caso, um dos principais escândalos de corrupção do governo Milei. "Só sei, por ele, que a irmã de Javier Milei estava envolvida", afirmou ao jornal argentino em referência a Karina, secretária-geral da Presidência. "Fernando me disse que as gravações eram reais e que haviam sido vazadas para que o caso não ficasse impune. Que sua ex-esposa não era corrupta."


O governo Milei não se pronunciou diretamente sobre as acusações de Beller, mas vem compartilhando publicações irônicas sobre o caso. Uma delas mostra a foto da mulher com o seguinte texto: "Você leva três tiros nas costas, mas aparecem quatro ferimentos no seu peito e, milagrosamente, seis horas depois você está apto a falar e dar entrevistas. Uma farsa completa".


Sobre o suposto atentado, Beller afirma que foi Cerimedo quem a convenceu a ir a um encontro na segunda. Já no hospital, falou com o ex-parceiro. "Eu disse a ele que ele havia tentado me matar. Perguntei: 'Foi você?'. Ele me disse que eu não podia pensar isso, que me amava, que viria me ver. Mas a polícia nos disse que, na verdade, ele estava tentando viajar para a Argentina com uma mochila cheia de dinheiro", afirmou, ainda ao La Nación.


Por meio de sua defesa, Cerimedo nega ter envolvimento. "Ouso dizer que foi um ataque autoinfligido", afirmou a advogada Margarita Arce à Radio Rivadavia, nesta quarta. "Acreditamos que ela orquestrou tudo para causar esses ferimentos e também para incriminar Fernando Cerimedo, que é muito próximo de Rodrigo Paz."


Quando trabalhou para a vitoriosa campanha de Milei, em 2023, Cerimedo já levava anos prestando serviços para políticos de diferentes colorações ideológicas na América Latina -ele é sócio, ao lado do empresário espanhol Javier Negre, do site ultradireitista La Derecha Diario, conhecido por publicar notícias falsas.


Foram os resultados para políticos de direita e ultradireita, porém, que o colocaram em destaque -no currículo estão o ex-presidente argentino Mauricio Macri, a campanha contra a Constituição do Chile e até mesmo Jair Bolsonaro, no Brasil. Mais recentemente, além de Paz, ele trabalhou com Nasry Asfura, atual presidente de Honduras.


Questionado em maio de 2023 pelo La Nación sobre seu trabalho com o ex-presidente brasileiro, Cerimedo emendou informações falsas.


"Fui censurado no Brasil, de 5 de novembro até três semanas atrás, porque denunciei a fraude eleitoral", afirmou, em relação à acusação sem provas de que o pleito de 2022 teve irregularidades massivas. "O ataque foi totalmente planejado [pelo governo Lula], mesmo que haja indivíduos com problemas mentais e extremistas entre os bolsonaristas", continuou, mencionando outra teoria já desmentida.


Sobre o trabalho para Milei, disse que não cobrava. "Estou dando uma mão para ele", afirmou. "Esta é a minha contribuição para o meu país."


Cerimedo é acusado de tentativa de feminicídio, e os promotores pedem prisão preventiva de 180 dias para ele. A audiência em que o juiz analisaria a demanda deveria ter ocorrido nesta quinta, mas foi adiada para esta sexta-feira (21).